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A justiça é um clamor, um grito, uma aspiração e um desejo de quem enfrenta situações de opressão, de cerceamento da liberdade e de exploração. Ainda não se conseguiu uma definição adequada do que seja justiça, porém identificamos claramente o que seja a injustiça, que é a sua ausência.

Para pensar na justiça, é preciso partir de três pressupostos: o primeiro é que a justiça é um construto, ou seja, é um conceito que não dá para ser observado de forma clara; o segundo é que a noção de justiça que temos hoje é marcada por uma pluralidade de significados; e o terceiro é que somente compreendemos o que é justiça a partir do enfrentamento de condições de desigualdade.

A preocupação com a justiça passou por várias transformações históricas de tal modo que o que temos hoje é resultado de alguns fatores sociais e culturais que foram determinantes para a sua construção. O primeiro deles é o surgimento das cidades e a sofisticação da vida urbana, com a administração da vida dentro de um espaço geográfico comum. Outro fator importante foi o surgimento da escrita e, com ela, uma cultura fundada no letramento e na textualidade. Mas também influenciou bastante a prática comercial, primeiramente baseada na troca e posteriormente a partir do surgimento da moeda como reguladora de valores.

A ideia de justiça vem sendo construída desde civilizações antigas. Os povos que habitaram a Mesopotâmia tinham a ideia de que a justiça era um valor divino, representado pelo Sol. A ideia era de trazer a justiça à Terra. Ou, como previa Hamurabi em seu código: fazer resplandecer o direito no país, arruinar o mal e o malfeitor e impedir que o forte maltrate o fraco. No Egito, a justiça era representada por uma balança. O foco era regular e organizar as relações e os processos sociais. O que se buscava era o equilíbrio, de tal modo que as partes saíssem satisfeitas do tribunal. Entre os gregos, a preocupação era que cada um deveria fazer o que lhe cabe na sociedade, nem mais nem menos. A maior tragédia social seria um escravo ou alguém da ralé chegar a governar a cidade. A deusa da justiça Themis era representada por uma donzela carregando a balança em uma das mãos e a espada na outra, com seus olhos bem abertos. Quem vendou a justiça foram os romanos. Na história grega houve dois juristas atenienses que ficaram famosos no século VI a.C.: Drácon e Sólon. O primeiro como como criador das leis penais mais severas e o segundo como o reformulador dessas leis a partir de aspectos sociais e econômicos. Entre os hebreus, o sentido de justiça era marcado pelo aspecto moral, voltado para a busca de relações justas conforme uma ordem legal estabelecida. O sentido de justiça no Antigo Testamento era de uma confiança, mas a versão inglesa da Bíblia traduziu a palavra justiça como uma retidão.

De um modo geral, o conceito de justiça que prevalece é baseado tanto na ideia de uma retribuição como de uma recompensa. Daí que, quando alguém grita por justiça está pedindo uma dessas três coisas: uma vingança, a reparação de um dano ou a garantia de um direito adquirido. É isso que faz com que as pessoas acreditem que, fazendo a coisa certa, poderão alcançar os resultados desejados.

Essa mentalidade retributiva é aplicada até mesmo em nossa relação com Deus. Uma fé firmada nesse princípio diz: “faça as coisas corretamente e Deus o abençoará”. Entretanto, a concepção de justiça que Jesus Cristo afirmou caminha na direção contrária. Para Jesus, se quisermos experimentar a justiça, é preciso acolher o amor e a misericórdia daquele único que é justo: Deus. Viver de modo justo e digno só é possível de acordo com os propósitos do Criador de todas as coisas. O evangelho da graça é aquele que afirma acolhida ao amor e à misericórdia divina para viver de maneira correta. A bênção divina não é uma conquista por viver de maneira correta. A bênção divina é o que nos ajuda a viver de maneira correta.

O conceito de justiça trazido por Jesus Cristo lembra uma construção. Uma vez que todos fomos criados pelo mesmo Deus, isso nos torna iguais em condições e direitos. O problema é que também somos iguais em relação ao pecado. Por essa razão, jamais seremos capazes de nos tornarmos pessoas melhores, agirmos corretamente ou nos salvarmos de nossa própria perdição por méritos próprios, se não experimentarmos uma transformação de dentro para fora.

O evangelho trouxe para as concepções de justiça em vigor uma inovação: a justificação pela fé. A justiça não acontece sem a justificação pela fé. A justificação pela fé é o que nos permite receber o dom divino de nos tornarmos pessoas melhores e justas de acordo com o propósito divino. A justificação pela fé inclui sermos perdoados, porém é mais que isso. Ser perdoado é ser liberado para seguir adiante na nossa vida, mas ser justificado pela graça é ser liberado para viver a vida que Deus planejou na presença amorosa dEle.

A justiça é, portanto, o sinal de uma vida transformada pela graça. Você não se torna justo por se preocupar com o direito dos mais vulneráveis, mas se você foi justificado pela fé se importará com aqueles que têm seus direitos violados. Quando alguém acolhe a graça de Deus em Cristo, é impulsionado em direção à justiça. É o que a Bíblia nos diz: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2 Coríntios 5.21).

Se alimentamos um relacionamento com Deus, mas não nos importamos com as condições de exploração, opressão e desigualdade do mundo, tem alguma coisa errada em nosso relacionamento com Deus. A Bíblia, inclusive, apresenta o quarteto vulnerável para servir de referência para o nosso senso de justiça. Ele é formado pela viúva, pelo órfão, pelos imigrantes e pelos pobres. Se você não se importa com eles, quem está mal e você e precisa clamar por sua própria transformação.

A graça salvadora de Jesus interfere diretamente no nosso senso de justiça. De um modo geral, as pessoas acreditam que, se forem moralmente boas, Deus as recompensará. Entretanto, aquele único que é justo, que nos chamou para viver conforme a sua justiça, sabe que a nossa condição – por mais correta que possa parecer – está distante do seu propósito. Toda forma de injustiça, desigualdade, exploração e violência é importante para Deus. Ele sabe que todas elas são resultados da maldade humana que só encontra solução na acolhida do seu amor misericordioso.

Deus sabe que nossas tentativas de fazer justiça, seja com nossas próprias mãos ou até mesmo com nossa razão, sempre será de forma incompleta e imperfeita. A injustiça no mundo é fruto da maldade humana. Quando pessoas se importam com a justiça, deixando de lado as causas pelas quais as injustiças acontecem em sua volta, isso não passa de uma farsa. Quando acusamos as injustiças do mundo, mas não identificamos os modos como eu tomo parte delas, isso é hipocrisia. E quando vemos as dores e as mazelas do mundo e não nos reconhecemos como parte da solução, isso é crueldade.